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A Prateleira

May 8, 2017

 

Olá

Ventos do norte soprando moinhos. Começo o meu dia inspirado a caminho de Heiloo, numa manhã de primavera europeia, nublada, fria, mas por dentro estou cheio de calor. Final de semana foi cheio de coisas boas. Começou com um show incrível da Roberta Sá, em Amsterdam, dentro de um projeto superbacana chamado A Hora do Brasil, que traz o melhor da MPB pra cidade, nesta época do ano. Show lindo, a voz dela me cativou, as músicas, tudo!, aqueles sambas ora tristíssimos como quem diz "tire o seu sorriso do meu caminho que eu quero passar com a minha dor" ora sambas animados e músicas já conhecidas do seu repertório como "Fogo e Gasolina". Dancei e me diverti pencas com duas amigas. Lavei a alma! Também fui a uma expo no De Hallen que eu adorei e, ontem, soubemos felizes que a França elegeu Macron como seu novo presidente, calando, pelo menos por enquanto, a intolerante Le Penn. Além de tudo isso, finalmente, consegui finalizar o meu novo curta-metragem chamado "A Prateleira", depois de 2  anos e várias discussões pelo meio do caminho, o que fez dele um dos meus trabalhos mais ousados até agora com o Tiago Cardoso, fiel escudeiro, amigo e editor-master dos meus produtos audiovisuais na Mar de Ideias Conteudo Cultural, micro micro empresa de cinema independente que fundamos oficialmente, no ano passado, para contar nossas histórias. Sobre o curta eu pretendo falar mais.
A Prateleira surgiu no dia em que eu estava limpando uma casa e, sem querer, derrubei uma Barbie (da foto) no chão. Imediatamente, pensei: "Tenho uma boa história aqui". Me sentei na frente do computador e escrevi o roteiro de uma leva só. Na época, estava bombando na internet os vídeos do Porta dos Fundos e eu achei que seria uma boa fazer algo parecido. Sem querer dar spoiler, mas talvez seja inevitável, era pra falar de desejo sexual aflorado na adolescência. Uma tarde na vida de um moleque que não queria nada com nada. Simples, assim. Naquela maratona de curtas que fiz, nas minhas últimas férias no Brasil, em 2015, "A Prateleira" foi o primeiro deles. Cheguei todo animado, depois de um bom tempo longe dos set de filmagens. Já tínhamos pré definido o elenco, quando fui a uma reunião de elenco com a atriz e hoje musa fitness Maria Dias e, pouco antes disso, soube que ela tinha adorado o roteiro porque tinha visto ali uma denúncia social bastante importante. Atento que sou a tudo, na hora gritei: "Parem as máquinas!" e pedi mais detalhes da conversa. Tiago me contou tudo que ela havia lhe dito e na hora eu decidi mudar toda a intenção do filme, sem que eu precisasse trocar uma única palavra do roteiro. Isso só prova que criar é um ato mágico, que a nossa língua é poderosa e que cinema só se realiza em equipe, contrariando essa ideia, embora muito verdadeira na maior parte do tempo, de que cinema é a arte do diretor.
Essa nova leitura do roteiro trouxe uma visão feminista que nos conduziu a uma série de discussões e eu, mais que o Tiago, é verdade, fiquei fascinado, porque pra mim arte é isso, deslocamento, desvio de rotas, um constante chacoalhar de mentes, propondo reflexões diversas ou simplesmente atiçando paixões, mas nunca resultando em indiferença. E cada vez que eu tentava convencer o Tiago de que estávamos certos, diante do seu ceticismo quase imutável, eu mesmo me convencia da legitimidade do nosso trabalho. No entanto, foi preciso uma mulher enxergar algo que nós fomos incapazes de ver, porque somos educados para o machismo, infelizmente, mas graças aos deuses da arte fomos humildes o suficiente para assumir que ela estava completamente certa. Normalmente, uma obra audiovisual é cheia de camadas, interferências, mas nesse caso não restava dúvidas, ninguém nos demoveria daquela ideia fixa: vamos, sim, falar de estupro!
Sem entrar em muitos detalhes, a trama gira em torno de Sandrinho, que é irmão de Mônica, que é casada com Rogério, que não suporta Sandrinho. O cara é boa pinta, passa férias de verão na casa da irmã e leva a vida que pediu a Deus: não fazendo nada. Um dia eles pedem para o emprestável colocar uma prateleira no quarto da sobrinha e... bem, o que acontece lá, só assistindo mesmo. Sorry. 

As filmagens ocorreram de forma tranquila, em dezembro de 2015, e precisamos apenas de dois dias para finalizá-las. Eu me virei em mil: fiz a direção de arte, que adoro fazer, diga-se de passagem, cuidei da maquiagem, figurino e da logística de produção, preparei os cenários, cuidei da alimentação dos atores e nas horas vagas me fiz de palhaço também porque um set sem descontração pode ser um completo desastre. O Tiago estava em um outro trabalho, na noite anterior, e entrou pela madrugada por lá. Ele praticamente assumiu as nossas câmeras Canon T3i, sem pregar os olhos. Infelizmente, não tinha como cancelar. Usei a casa do meu irmão (que estava em lua de mel) como locação e, então, só nos restava gritar ação! Nesse momento, os atores brilharam, porque entenderam, de cara, o que buscávamos e se saíram muito bem. Robson Barbosa, Maria Dias e Nando Pinheiro, nossos sinceros agradecimentos. Esperamos que vocês se sintam orgulhosos do nosso trabalho. A fotografia não é das mais bonitas, é  verdade, mas não chega a fazer feio também. Depois das filmagens, para não esfriar completamente, fui para ilha de edição com o Tiago e separamos o material bruto, o que eu mais gostei até ali e montamos o primeiro corte do filme e o colocamos na gaveta. Apenas há uns dois meses, o resgatamos e ele pôde ser editado de fato, quando ganhou uma trilha esperta e uma mensagem de texto que faltava para que ele se completasse.
Nesse período, vimos dois casos absurdos de estupro coletivo, um na Paraíba e outro no Rio de Janeiro, várias denúcias de assédio sexual que pipocaram na mídia e o surgimento de uma série ótima como 13 Reasons Why. Por isso fiz o que deveria ter feito desde o começo: mergulhei de cabeça no tema. Li e vi tudo que pude. As estatísticas são terríveis. A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. E me assustei. E me choquei. E fiquei com raiva. E chorei vendo Filha da Índia, um belo documentário. E conversei com amigas. E entendi as mulheres. No final, me senti aliviado por não ter assinado um produto medíocre, um curta que sequer ficaria na memória das pessoas. Mas a vida não é essa caixa de bombons sortidos? Pois bem, agora é torcer para que ele encontre o seu lugar ao sol, mas, se não encontrar, também não será renegado. Pelo contrário. E isso já é um grande prêmio! Abração e até a próxima! 

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