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  • luisfabianoteixeira

BlackPower

Olá

Já faz um tempinho que surgiu na internê uma polêmica em torno de uma moça branca de Curitiba que estava ou está com câncer (espero que ela tenha se curado) e postou uma foto usando um turbante, na página do Facebook dela, e, supostamente, teria sido agredida por pessoas negras reclamando que aquele era um símbolo de ancestralidade da cultura africana e ela sendo branca estaria promovendo uma espécie de delito, de afronta. Bom, isso gerou um quiprocó daqueles e na ocasião não tive tempo de refletir sobre o assunto com calma e expressar minha opinião a respeito. Faço-o agora e ainda aproveito pra linkar com um outro assunto que tem a ver com tudo isso e que muito me interessa: apropriação de imagens. Nesse lamentável episódio no qual essa moça se envolveu, o que tenho a dizer é o seguinte: sinto muito meus amigos negros e nação africana do meu país, mas não acho que ela o fez pra ridicularizar, pra ofender a cultura de vocês ou coisa parecida, o que na minha humilde opinião seria a única forma de repudiar o uso do tal turbante. O Brasil é mestiço por natureza, todo mundo sabe disso e negar essa ou qualquer troca de cultura, tomar pra si uma vestimenta ou um bem cultural só porque existiram brancos escravocratas e opressores no passado, homens que tingiram de sangue páginas e páginas da nossa história, só vai criar mais ódio e polêmica desnecessária, vocês não acham? Se não me engano, essa modinha de criar polêmica em torno de apropriação cultural surgiu, nos Estados Unidos, quando as Kardashians (sempre elas!) usaram tranças que "pertenciam" a índios americanos ou algo assim. Mesmo em se tratando desse tipo de celebridades, o fim a que foram expostas achei igualmente inútil. A moda volta e meia flerta com esse tipo de cinismo disfarçado de ironia para que determinada marca de roupa fique na boca do povo. Quem não se lembra de uma campanha da Calvin Klein, nos anos 90, com crianças seminuas usando apenas as famosas cuecas brancas da marca? Foi acusada de pedofilia, se desculpou, retirou a propaganda, mas depois do mundo inteiro reproduzir aquelas imagens, exibir a logo da marca, comentar, etc. A mesma Calvin Klein que numa jogada de marketing asertiva colocou atores do ótimo Moonlight, usando suas cuecas, logo após o Oscar, agora volta com uma campanha controversa: a imagem parece não ter nada demais, exceto o fato de dois adolescentes brancos estarem abraçados e, teoricamente, ignorando a presença de um outro negro, a menos de um metro de distância. Racismo? Sensacionalismo? Julgue você mesmo. No Brasil, uma marca de roupas usou como estampa uma imagem de um quadro do Rugendas, com escravos. É errado? Não. É de mau gosto? É. Eu jamais compraria uma roupa que reproduz uma mensagem degradante, que seja discriminatória ou coisa do gênero. Mas não é a mesma coisa do caso do turbante. O simples fato de um branco usar um turbante, pra mim, não depõe contra a cultura africana, a menos que se faça com deboche. Já usar uma imagem que registra um dos momentos mais tristes de nossa história transmite a ideia de que a pessoa apoia aquilo, afinal roupa é também linguagem e linguagem, meu bem, é muito vasto.

Vamos supor que esse tipo de acusação chegasse ao mundo das artes. Imagine o Richard Prince tendo que se explicar por que usou imagens dos cowboys da Marlboro e de enfermeiras em seus trabalhos (o Marc Jacobs teria que fazer o mesmo porque se "apropriou" das enfermeiras dele em uma coleção...), etc. Loucura total. Conceito de antropofagia, bem, esquece! Sempre fiz referência à cultura africana em meus trabalhos, desde o começo (podem procurar), porque quis e acho negros bonitos. Uma escolha espontânea. Então, ao invés de criticarem Daniela Mercury (pasmem, isso aconteceu no Carnaval), que fez uma homenagem a Elza Soares usando black power ou essa moça de Curitiba por ter usado um simples turbante, cantem, evoquem a beleza que vocês possuem, exaltem Machado de Assis, Basquiat e muitos outros. Um desabafo: O Bom-Crioulo é o primeiro romance gay da nossa literatura. Fato. Escrito ainda no século 19. Nunca vi um amigo negro, mulato ou pardo comentando sobre ele. Elogiando esse nosso Otelo que é, simplesmente, maravilhoso. Minha sugestão é que esse "empoderamento", que tanto se tem falado, comece por aí. Sem essa de que não pode isso ou aquilo. Que brancos ocupam um lugar de privilégio. É tudo gente. E gente é sensacional. Até a semana que vem! Muita paz! Beijos

© 2019 Luis Fabiano Teixeira
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